As palavras descoberta e educação implicam algo semelhante. Descobrir significa expor, revelar algo oculto. Educar significa retirar algo do interior. Exemplos óbvios foram as viagens de descobrimento nos séculos XV e XVI e a exploração dos até então desconhecidos territórios do planeta, assim como as viagens espaciais.
Mas é sobre a sensação da descoberta que queremos falar. Lembra-se de quando você pela primeira vez ouviu uma sinfonia de Beethoven ou leu uma obra-prima? Keats descreveu essa sensação ao ler Homero: “Então me senti como algum observador dos céus/quando um novo planeta entra no seu campo de visão/ou como um robusto Cortez quando,/com seus olhos de águia/contemplou o Pacífico/e todos os seus homens entreolharam-se,/com ansiosa suspeita/-silencio, sobre um pico em Darien.”
Ler esse poema de Keats pode ser uma relação, uma descoberta – mesmo que descoberta implique expor algo pela primeira vez. Quando o astrônomo olhou para o planeta que já conhecia, ou quando Cortez viu o Pacifico pela terceira vez, talvez não mais houvesse aquele silêncio eloquente. “A familiaridade nutre o desdém”, diz o ditado. As coisas mais belas tornam-se insípidas quando nos acostumamos a elas. Será possível manter vivo o espírito de descoberta ao ouvir uma sinfonia, ler um poema ou ver um quadro como se fosse pela primeira vez?
Depende de nós. Quando fazemos uma descoberta nesse sentido, confrontamos algo como se fosse uma nova experiência. A coisa nos toca diretamente, vai ao âmago. Talvez essa experiência seja tão especial porque abrimos nossos corações ao que é novo; por um instante nós nos tornamos um com a experiência e permitimos que ela expanda nossa consciência.
Você aprende muito pela observação, observando as coisas à sua volta, observando os pássaros, as árvores, os céus, as estrelas… E aprende também observando as pessoas, como elas caminham, seus gestos, as palavras que usam, como estão vestidas.
A descoberta nesse sentido pode também levar à autodescoberta. Considere com seriedade toda a vida à sua volta. Aprenda a considerar inteligentemente os corações das pessoas. Considere com maior seriedade seu próprio coração. Não apenas observe aquilo que está fora, também observe a si próprio, por que pensa isso ou aquilo, observe sua conduta na vida diária. Ver a si mesmo como parte do todo, ver a imensidão do universo. Isto é observação: ver sem a sombra de si mesmo. Temos aqui um paradoxo: auto-observação com autoesquecimento, talvez a maior bem- aventurança que exista.
Svadhyaya significa autoestudo. H. P. Blavatsky falou do autoestudo, no livro A Doutrina Secreta, como “um meio de exercitar e desenvolver a mente”. É uma continua expansão de consciência transcendendo o insignificante senso de “eu”. Da forma como estamos hoje, ainda com o nosso insignificante senso de eu, o que há para descobrir em nós mesmos?
A maioria das pessoas pensaria imediatamente no subconsciente, significando aquele reino um tanto sombrio para o qual banimos as experiências, pensamentos e sentimentos dos quais nos envergonhamos, que nos perturbam ou dos quais temos medo. Simplesmente nos recusamos a pensar neles. Não encarar o conteúdo do nosso subconsciente, recusá-lo ou encobri-lo é como tentar descartar um material radioativo jogando-o no oceano, ou como tentar pôr uma rolha num vulcão para evitar que entre em erupção.
Krishnamurti alegava que não há subconsciente. Pode ter sido o caso com ele, que enfrentava as coisas como elas vinham. Sua vida parece ter sido uma longa e emocionante viagem de descoberta. Mas nós, da próxima vez que experienciarmos medo, desgosto ou vergonha, também podemos enfrentar esses sentimentos corajosamente, deixar que eles contem sua história, ouvi-los atentamente, sem interferência.
O problema é que temos uma ótima opinião sobre nós mesmos. Talvez seja melhor não ter opinião, mas empreender a autodescoberta para encontrar algo que verdadeiramente nos diz respeito. O ciúme ou o ódio são como uma casa feia que construímos, uma mancha na paisagem. Ela não desaparecerá se fecharmos os olhos. Portanto, devemos aceitá-la, mas não vamos mais construir uma casa semelhante.
Extrair o que está dentro
O eu que consideramos pode ser o “pequeno eu”, nossas falhas e triunfos do dia a dia, ou pode ser o “Eu” que não está na nossa experiência do dia a dia. Mas podemos expor uma pequena porção dele em alguns momentos em que desviamos o olhar, quando nos esquecemos de nós mesmos. Então, subitamente lembramos mais uma vez do nosso pequeno eu e pensamos: “Que experiência maravilhosa eu tive”… e toda gloria desaparece como uma bolha de sabão.
Os dois eus podem ser comparados a dois pássaros pousados numa árvore. Um está ativo, saltitando daqui para ali, bicando, batendo as asas. O outro simplesmente observa. Contudo, os dois são um. Esta seria a verdadeira situação: o pequeno eu e o Eu Superior são um. Mas, do ponto de vista do pequeno eu, são duas coisas diferentes. Talvez, quando verdadeiramente fizermos a descoberta que nos tirará o fôlego, que nos transportará, o pequeno eu se dissolva no Eu Superior.
Podemos fazer uma descoberta externa – como um explorador, um astrônomo, um artista – ou simplesmente como uma pessoa criativa e sensível, lendo um poema ou aprendendo sobre uma descoberta científica. E essa descoberta pode ao mesmo tempo ser uma autodescoberta, um insight objetivo quanto à nossa personalidade – ou mesmo a descoberta daquele Eu que está a maior parte do tempo encoberto pela personalidade.
A educação é semelhante à descoberta. No entanto, descoberta implica algo um tanto passivo: simplesmente retira-se a cobertura e tudo está revelado. Educação implica algo mais ativo: é preciso extrair o que está dentro.
Há duas visões opostas em relação ao que pode ser alcançado pela educação. Segundo a primeira delas, a criança nasce com uma certa natureza, certos dons, e não podemos fazer muito para mudar essas predisposições. De acordo com a segunda visão, um bebê recém-nascido é como uma folha de papel em branco ou um pedaço de argila, onde se pode escrever ou modelar segundo o desejo do educador. Os Jesuítas alegavam que, se a criança lhes fosse entregue até os sete anos de idade, eles conseguiam modelá-la para o resto da vida. Essas duas visões extremas são conhecidas como “natureza” e “criação”. Hoje em dia, as pessoas mais razoáveis reconhecem que a verdade está em algum lugar entre ambas.
Segundo a literatura teosófica, a criança traz de vidas passadas os chamados skandhas, tendências desenvolvidas no passado. Juntam-se a isso as influências que recebemos na vida, inclusive a educação. Elas estão constantemente brincando conosco, especialmente nos primeiros anos, e criando nossos condicionamentos, isto é, nossos gostos e aversões, e até mesmo causando sérios problemas. A teoria da “criação” prevaleceu na Europa durante séculos.
Alguns pioneiros da educação moderna tentaram, em tempos recentes, livrar-se dessa interferência. Rousseau foi talvez a primeira pessoa na Europa moderna a afirmar que o ser humano nasce naturalmente bom e é corrompido pela sociedade e certamente pela educação formal de sua época – pelo condicionamento. O conceito de Maria Montessori era que o professor deve interferir o mínimo possível e simplesmente prover o ambiente no qual a criança poderá ensinar a si própria – em outras palavras: aprender.
Sócrates, segundo Platão, interferia um pouco, mas sua ideia era ativamente “extrair”, através de perguntas específicas, o conhecimento que já estava em seus ouvintes. Ele amava fazer as pessoas compreenderem o quão pouco elas realmente sabiam, suscitar dúvida e depois se afastar, deixando as perguntas sem resposta, enlouquecendo assim os seus ouvintes – ou encorajando-os a continuar buscando dentro de si, empreendendo uma viagem de autodescoberta. De muitas maneiras ele nos faz lembrar de Krishnamurti.
Sócrates se comparava a uma parteira que auxilia no parto de uma criança, mas que não é realmente responsável pelo nascimento. “Deus me ordena a realizar a missão do filósofo de buscar em mim mesmo e em outros homens (…) Ele é um tavão doado ao Estado por Deus, e não será fácil encontrar outro como ele. Ouso dizer que você se sente zangado (como uma pessoa que é subitamente despertada do sono), e acredita que poderia facilmente me matar com um golpe (…) e depois você dormiria pelo restante de sua vida, a não ser que Deus, no cuidado que tem por você, lhe envie um outro tavão.”
Esse era o método socrático, e talvez possa ser emulado. Pode-se também emular Rousseau e Maria Montessori. Mas talvez os métodos e as técnicas que eles desenvolveram fossem apenas expressões de sua atitude interior, e menos importantes do que ela. Talvez muito dependa, acima de tudo, do professor, particularmente de sua atitude interior. Um professor talentoso pode ser bem-sucedido com um método antiquado, e um professor que não tenha talento pode causar danos com um método moderno.
O conceito de educação está geralmente limitado à ideia de crianças, escolas, faculdades e lugares onde os jovens são ensinados por professores mais velhos. Considera-se também, em primeiro lugar, o aprendizado de uma profissão, o sobreviver, um treinamento para a vida num sentido puramente materialista.
Mas a educação num sentido mais amplo não está confinada à juventude e a estabelecimentos educacionais propriamente ditos, ou ao treinamento para a sobrevivência, pois a vida é muito mais que a sobrevivência puramente material; a educação pode acompanhar a vida da pessoa enquanto ela estiver aberta ao aprendizado. E qualquer um pode funcionar como professor ou aluno.
Podemos encontrar pessoas que extraem o melhor de nós, assim como pessoas que extraem o pior. Ambas as experiências são valiosas, se as encararmos com atenção. Acima de tudo, se estamos abertos, flexíveis, perceptivos – críticos e autocríticos no sentido positivo – somos nossos próprios instrutores e nossos próprios alunos. “A totalidade da existência humana é um processo de autoeducação que é constante e talvez sem fim”.
O que devemos aprender, na infância ou em qualquer momento da vida? A verdade, como afirmaram Sócrates e Krishnamurti – ou, no nosso nível cotidiano, os fatos, as coisas como elas são, sejam as grandes verdades, como a unidade interior de tudo, ou as pequenas verdades do dia a dia.
Qual o caminho para a verdade? Como podemos desvendá-la? Removendo as máscaras, eliminando aquilo que não é genuíno, que é falsidade, fraude, adulação. A falsidade pode ser infligida a nós por outra pessoa, infligida a outro por nós ou infligida a nós por nós mesmos.
Também podemos abordar o que é verdadeiro (não digamos “encontrar a verdade”) puxando-o para fora. A verdade surgirá. Mais cedo ou mais tarde os fatos surgem.
Extrair a verdade de outra pessoa ou de nós mesmos corresponde ao método socrático. Em nosso coração muitas vezes conhecemos os fatos, mas não os admitimos. Se, no entanto, perguntarmos a nós mesmos, considerarmos nossos pensamentos de modo crítico e recusarmos aceitar qualquer coisa que não seja correta, seremos capazes de abordar a verdade a respeito das coisas.
A educação que a pessoa tem depende muito das circunstâncias – e, portanto, depende indiretamente dela mesma, uma vez que nós criamos nossas próprias circunstâncias. Mas o quanto a pessoa se beneficia da educação ou sobrevive apesar dela depende diretamente dela mesma.
Mary Anderson
(Revista Sophia ano 15 – nº 67 maio/junho – 2017 – publicação Editora Teosófica – pág. 22 a 27)